Top 5 – Subversões Brasileiras

Quando o Bruno me contou que pretendia fazer esse top 5, pedi na hora pra deixar que eu escrevesse. É porque, com o meu amor pelas tosquices musicais, acabei criando um grande acervo dessas pérolas do cancioneiro brasileiro: as versões toscas.

É o que mais tem. De artistas bem sucedidos aos iniciantes. Tem muita gente famosa inclusive que baseia boa parte do repertório. Letras que não só não traduzem nada da original como algumas que são absurdas até em português (como o pleonasmo O que é imortal não morre no final, na versão que Sandy & Júnior fizeram para Imortallity dos Bee Gees, e que por pouco escapou de entrar nessa lista).

Por isso foi bem difícil filtrar para ter só 5 aqui. Mas qualquer coisa pode rolar uma continuação no futuro. Por enquanto, fiquem com essas 5 versões brasileiras que não foram feitas na Herbert Richters.

#5 – Astronauta de Mármore, do Nenhum de Nós (versão de Starman, do David Bowie)

Vou cometer uma heresia, mas tenho que confessar: eu gosto de Astronauta de Mármore. Sei lá, acho empolgante quando entra o refrão Sempre estar lá / E ver ele (sic) voltar / Não era mais o mesmo / Mas estava em seu lugar.

Vamos comparar as duas versões. Bowie começa Starman descrevendo uma noite estranha. Não sabia que horas eram, as luzes estavam baixas, o rádio começava a falhar. Até aí tudo bem, porque o Nenhum de Nós vai na mesma levada (A lua inteira agora é um manto negro / O fim das vozes no meu rádio). Só que aí vem o grande erro deles: eles se empolgam. Acham que tão mandando benzão e resolvem viajar. Mas eles não são Bowie. Quando escreveram Quero um machado pra quebrar o gelo devem ter achado que “putz, escrevemos uma metáfora foda, gente”. Não só é tosca como… pra que? Onde essa merda se encaixa na porra da música?

Mas vamos continuando. Bowie nos conta que There’s a starman waiting in the sky / He’d like to come and meet us / But he thinks he’d blow our minds (tem um homem das estrelas esperando no céu/ ele gostaria de vir e nos conhecer / mas acha que explodiria nossas mentes). Ok, tudo bem, uma letra pouco convencional, mas excelente e totalmente dentro do contexto de um David Bowie. Aí o que o NdN (vamos chamá-los assim pra poupar teclado) faz? Aquele refrão empolgante, mas sem sentido nenhum, que citei lá em cima.

Aliás, de versos sem sentido essa e as versões que você vai ver aqui estão cheias.

#4 – Então é Natal, da Simone (versão de Happy Xmas, do John Lennon)

Haja xampu.

Quando novembro se aproxima do fim, a gente já começa a ouvir essa música nas Lojas Americanas. Acho que o único CD natalino que eles têm é o da Simone, porque todo ano é igual. E sempre a gente tendo que se torturar com isso.

Happy Xmas é uma boa canção natalina do John Lennon na sua fase pai de família (que inclusive começa com um “happy christmas, Kyoko; happy christmas, Julian”, filhos dos primeiros casamentos de John e Yoko). Nela, ele questiona o que as pessoas tem feito, deseja um feliz natal a todos (For weak and for strong / The rich and the poor one e mais à frente For black and for white / For the yellow and red one) e com isso, convoca todos a criarem um mundo melhor (afinal, the world is so wrong) e sem guerras. War its over if you want it (A guerra acaba se você quer).

E é aí que entra nossa querida Simone e sua bela cabeleira com permanente e seu mullets gigante. Enquanto, no resto da música, ela até mantém uma certa coerência, quando chega nesse corinho, ela joga tudo por água abaixo. War its over if you want it vira Hiroshiiiima, Nagasaaaaaki.

Agora alguém me explica: pra que??!!! Por que??!! Qual o sentido disso?!

Será que ela acha que só porque é Natal a gente vai ignorar e deixar passar batido? Bem, pra alguns pode até ser. Mas aqui no Vida Ordinária não.

#3 – Agora Estou Sofrendo, do Calcinha Preta (versão de Bleeding Heart, do Angra)

Tá bom, o Angra é uma banda brasileira, então talvez nem fizesse muito sentido colocar uma versão que fizeram deles aqui. Mas como cantam em inglês e, principalmente, como a versão feita foi pelo Calcinha Preta, então tem que ser lembrada.

Vá lá que o melódico não seja o sub-gênero mais másculo do metal, mas duvido que algum dia o pessoal do Angra esperasse que uma de suas canções virasse um forró romântico na voz de uma das bandas mais bregas do Brasil (só pra deixar claro, eu adoro Calcinha Preta – de tão ruim é genial!).

A versão dos sergipanos nos brinda com um sensacional verso: Me fere, me risca de amor, me foge, me alimenta! Nem a turma mela-cueca do Angra seria capaz de tanto. E por isso que é do Calcinha Preta (ÁU!!! – com direito ao gritinho estridente dos forrozeiros) a medalha de bronze.

O Rodrigo Pinder, do Discreto Blog da Burguesia, antes de cortar o cabelo era IGUALZINHO esse cabeludo do Calcinha Preta.

#2 – Hey Jude, do Kiko Zambianchi (versão de Hey Jude, dos Beatles)

Kiko Zambianchi é um cara conhecido por 3 coisas: 1) ser um pereba com pernas de garça no RockGol, 2) ter escrito Primeiros Erros e 3) ter assassinado um clássico dos Beatles: Hey Jude.

Talvez a primeira novela da qual eu tenha lembrança seja Top Model. Me lembro lá da Malu Mader, do Nuno Leal Maia como Gaspar. E é claro, me lembro daqueles primeiros versos…. Hey Jude… não fique assim / Sabe a vidaaaaaaaaaa ainda é belaaaa.

Hey Jude (a dos beatles) foi escrita pelo Paul para o Julian, filho negligenciado do John Lennon (aquele mesmo que recebe um Feliz Natal na música que a Simone estragou). Aliás, esse cara parece ter uma espécie de imã pra versões ruins, hein? Só falta eu descobrir que ele é do Savage Garden, banda que mais recebe versões em português. Se bem que não dá pra chamar uma versão de ruim se a original também é, né (o que é o caso das músicas do Savage Garden).

Então, voltando ao assunto. Kiko Zambianchi pegou aquela letra motivadora, de apoio a uma criança para encarar a vida e transformou em basicamente… a mesma coisa, só que de forma menos genial que McCartney. Sem falar em alguns momentos sem sentido, como:

Se alguém te faz sofrer, pra que lembrar ? Mas vale tentar viver de esperança.

Peraí, com o começo eu até concordo, mas do que vale viver de esperança? Tem que agir, porra! A música original é praticamente um “ei, moleque, você é foda, levanta a cabeça, levanta seu traseiro desse sofá e faça sua própria sorte, confio em você”. Justamente o oposto de tentar viver de esperança.

O grande erro do Kiko foi ter vivido na esperança de que achassem essa versão boa.

#1 – Sônia, do Léo Jaime (versão de Sunny, do Boney M)

Léo Jaime e 7 garotas que, daqui,  não parecem ser vampiras.

Léo Jaime é um mito. O gordinho responsável por ótimos hits oitentistas como As Sete Vampiras e Conquistador Barato aqui também se mostra como um gênio da linguística nessa tradução. Ele transforma uma canção de disco music bobinha em um dos maiores hinos à putaria.

Vejam só.

Com ele, Sunny, yesterday my life was filled with rain (Sunny, ontem minha vida estava cheia de chuva) vira Sônia, não fica me excitando, que eu tô de sunga.

Sunny, you smiled at me and really eased the pain (Sunny, você sorriu pra mim e realmente aliviou a dor) vira Sônia, não arma a tenda agora que nós já vamos embora.

A música continua mais um pouco, aparentemente sem putaria, quando o Léo nos brinda com um Sônia, e é por você que eu me masturbo / Pensando em você me vem a sensação / Sem perceber eu tô com o “tal” na mão.

E ele não pára:

Sônia, vamos nessa festa fazer um trenzinho / Você na frente e eu atrás / E atrás de mim um outro rapaaaaaz / Sônia, que loucura!

Eu conheço gente que já parou de ouvir a música depois desse verso. Sério.

E continua:

Sônia, eu já deixei de ser aquele bom rapaz / Sônia, você não imagina do que eu sou capaz

Depois de fazer trenzinho com um outro rapaz atrás, eu imagino do que é capaz sim, meu amigo.

Dizem que eu sou um cara legal / Eu transo cunnilingus e sexo anal / Sônia, vou cair de boca

Cunnilingus… sexo anal… Agora sabem o que é mais bizarro? Ele cantava isso direto no Xou da Xuxa. Os anos 80 eram mesmo sensacionais, não é verdade, minha gente? Abertura de novela com nudez, músicas pornográficas cantadas em programas infantis… bons tempos. Ok, ok, na verdade a versão que tocava na grande mídia era mais comportada, e teve até clipe no Fantástico, que vocês podem ver clicando aqui. Mas ainda assim, a versão dirty fez mais sucesso.

Eu sempre estive à fim e você sabe disso / Eu só quero te comer, não quero compromisso / Sônia, meu amor, eu te amo

Taí. Não quer compromisso, só quer dar umas comidas na Sônia… mas mesmo assim a ama. Agora entendi porque tocava na TV a qualquer hora. Não era pornografia, era só uma canção romântica com toques de ousadia.

Enfim, brilhante. O tipo de coisa que a gente não vê mais hoje em dia.

Esse top 5 fica por aqui, mas dê sua sugestão de que versões poderiam ter entrado nessa lista. Tosquice é o que não falta na música brasileira e com certeza muita coisa ficou de fora. Diz aí!

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9 Responses to Top 5 – Subversões Brasileiras

  1. Carol disse:

    Melhor post de tds os tempos!

  2. pati disse:

    Hiroshiiiima, Nagasaaaaaki.

  3. Bruno Tavares disse:

    aahuahuahuahuahuahua…mt bom

    pra mim o maior hit é “Então é Natal”…classico de fim de ano!

  4. Talita disse:

    huahuahahahuahuhuahuahua

    gente, por que eu não conhecia a sônia???

  5. Anna Cwen disse:

    Ainda tem o Medley de versões dos Miquinhos também: “e ela é horrivel, espalha o medo aonde vai!”
    Acho que merece menção honrosa por ser um monte de versões toscas em uma mesma musica!

  6. Mariana disse:

    Eu pensei em fazer um post nesse estilo, na época que postei os “vômitos da alma”, mas deu preguiça….

    Top Model foi uma novela foda! Não que isso venha ao caso, mas deu vontade de comentar.

    Tinha uma listinha dessas tosqueiras, vou procurar ela depois. Seria legal se esse post tivesse continuação, hahahaha

    E Knolex (ou Xandão, como te chamam aqui) também é cultura, não sabia dessa história da Hey Jude.

  7. Fubá, Knokno, Knol, Xandão, alexandre… você escolhe. Mas Knolex não. Chega. =P

  8. Bruno Tavares disse:

    aqui a versão original da Sonia…auhauhahuahu

  9. […] por último a maior heresia: Nada Me Faz Esquecer. Simplesmente uma versão (que merecia vaga no Top 5 de Subversões Brasileiras) de Wild World, do Cat Stevens (pra mim uma das 5 melhores canções de todos os […]

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